A 12 de agosto de 2026, ao pôr do sol, a Península Ibérica tem o seu primeiro eclipse total em mais de um século. Aqui fica como fotografá-lo sem arriscar os olhos nem o sensor.
Este guia adapta ao corpo e à objetiva de kit da a6000 os ajustes técnicos da ficha da PhotoPills para eclipses, com algumas notas próprias deste evento em concreto. Primeiro, o mais importante: confirme onde vai estar exatamente. A totalidade só acontece numa faixa estreita — desta vez atravessa a Islândia, a Gronelândia, o Ártico russo e o nordeste de Portugal e o norte/leste de Espanha. Se estiver no resto de Portugal continental, verá um eclipse parcial bastante significativo — a Parte 3 (os passos exclusivos da totalidade) não se aplica nesse caso; avance direto para os ajustes das fases parciais na Parte 2. Se estiver no Brasil ou noutro ponto da América do Sul, este eclipse específico não é visível de lá — a faixa não passa perto do continente americano. Seja qual for o seu caso, treine esta semana com a Lua (Parte 4) em vez de estrear tudo no próprio dia.
PARTE 0
O que não pode falhar
Antes de falar de ajustes: o Sol não perdoa. Leia isto mesmo que salte o resto do guia.
Regra de oro SEGURANÇA OCULAR E DO SENSOR
Nunca olhe diretamente para o Sol — nem a olho nu, nem pelo visor da câmara, nem através de uma objetiva — sem óculos certificados ISO 12312-2 ou sem filtro solar montado na objetiva. Um único olhar sem proteção pode queimar a retina de forma permanente e sem dor: só vai notar depois.
O filtro da objetiva fica sempre montado, exceto no minuto exato da totalidade (Parte 3) — e só se estiver dentro da faixa de totalidade.
Sem filtro, a luz do Sol concentrada pela objetiva também pode fritar o sensor em segundos.
Óculos de sol normais, mesmo caríssimos, não protegem nada. Só os óculos certificados ISO 12312-2 são seguros — baratos e fáceis de encontrar em ópticas ou lojas de astronomia.
Uma vantagem da a6000 sobre as reflex antigas: o visor (EVF) é um ecrã eletrónico, não um túnel ótico direto até ao Sol. Olhar pelo visor não acrescenta risco para os olhos — desde que o filtro esteja montado na objetiva. O verdadeiro perigo está sempre na luz que entra pela frente da ótica, não na forma como a vê.
O filtro solar (película Baader AstroSolar, filtro ND 100.000 ou "vidro de soldador nº14" homologado) coloca-se na parte frontal da objetiva, cobrindo toda a ótica — nunca na parte de trás, junto ao sensor. Compre-o com antecedência: no início de agosto o stock esgota-se rápido.
PARTE 1
O dia, o local e a mochila
Este eclipse chega à Península Ibérica bem no fim da tarde, com o Sol muito baixo. Isso muda onde se deve posicionar.
Onde e quando 12 DE AGOSTO DE 2026 · PÔR DO SOL
Se for até à faixa de totalidade — nordeste de Portugal, norte de Espanha, Islândia ou Gronelândia — a totalidade chega mesmo ao fim da tarde, com o Sol perto do horizonte. Vai precisar de um horizonte oeste completamente desimpedido: sem montanhas, edifícios ou árvores pela frente. Verifique a hora e a duração exatas da totalidade no seu local concreto antes de ir — varia bastante de cidade para cidade — com o simulador do observatório nacional espanhol ou com a PhotoPills.
Missão: antes do dia 12, visite o local escolhido à hora prevista e confirme com o telemóvel que nada bloqueia o Sol para oeste.
A mochila do eclipse LISTA DE VERIFICAÇÃO
Indispensável
Para quê
Filtro solar para a objetiva
Fotografar as fases parciais sem danificar o sensor
Óculos ISO 12312-2 (um por pessoa)
Ver o eclipse a olho nu em segurança
Tripé
Enquadramento estável; a luz cai muito durante a totalidade
Disparador remoto ou app do telemóvel
Disparar sem tocar na câmara nem tremer
Bateria carregada + uma reserva
Vai disparar em modo contínuo durante vários minutos
Cartão de memória com espaço de sobra
As sequências em bracketing geram muitos ficheiros
Um aviso honesto sobre a objetiva de kit 16-50mm: a 50 mm, o Sol ocupa um ponto minúsculo no enquadramento, nada parecido com aquelas fotos da coroa solar a ocupar todo o ecrã que vai ver nas redes sociais (essas são feitas com teleobjetivas de 400 mm ou mais). Não é um defeito da sua câmara, é física: se quiser o disco grande, precisa de mais distância focal emprestada ou de um teleconversor. Se não tiver nenhum, aponte antes para a Parte 3 — a paisagem a escurecer é um plano que a sua objetiva de kit consegue fazer muito bem.
PARTE 2
Ajustes por fase (com filtro montado)
Cinco fases, cada uma com o seu estado de filtro, velocidade e bracketing. Tudo em modo manual (M).
1 · Fase parcial 🟢 FILTRO MONTADO
O Sol vai perdendo uma "dentada" de cada vez. A fase mais longa, sem pressa.
Velocidade
ISO
Abertura
Bracketing
1/500 s
100
f/8
3 disparos @ 1 EV
Um disparo (com o seu bracketing de 3 imagens) a cada 5 minutos chega perfeitamente para documentar a "dentada" a crescer no Sol. Não precisa de disparo contínuo aqui: esta fase dura mais de uma hora.
2 · Antes da totalidade 🔴 FILTRO RETIRADO — NÃO OLHE DIRETAMENTE PARA O SOL
Os últimos 20 segundos antes da escuridão total. É aqui que aparecem os efeitos mais espetaculares.
Velocidade
ISO
Abertura
Bracketing
1/500 s
100
f/8
9 disparos @ 1 EV
Vai ver o anel de diamante, as contas de Baily (brilhos entre os vales da Lua) e um primeiro vislumbre da cromosfera. Retire o filtro da objetiva, mas continue a não olhar diretamente para o Sol a olho nu: com a câmara, sem filtro, dispare em modo contínuo máximo — este momento passa em segundos.
3 · Totalidade 🔴 SEM FILTRO NEM ÓCULOS — ÚNICO MOMENTO SEGURO A OLHO NU
A única fase em que se pode olhar diretamente para o Sol eclipsado, a olho nu e sem proteção — exatamente enquanto durar a totalidade, nem um segundo mais.
Velocidade
ISO
Abertura
Bracketing
1/15 s
100
f/8
9 disparos @ 1 EV
A coroa solar, o halo esbranquiçado que só se vê durante a totalidade. Dispare em modo contínuo máximo durante todo o tempo que durar — na faixa ibérica costuma rondar o minuto, mas varia segundo o local exato (confirme a duração no seu ponto concreto, ver Parte 1). É também o único momento em que pode olhar para o céu a olho nu sem óculos.
Contagem decrescente mental: assim que reaparecer o primeiro ponto de luz (fim da totalidade), óculos e filtro de volta imediatamente, sem esperar para "ver um pouco mais".
4 · Depois da totalidade 🔴 FILTRO RETIRADO — NÃO OLHE DIRETAMENTE PARA O SOL
O espelho da fase 2, por ordem inversa: a luz volta.
Velocidade
ISO
Abertura
Bracketing
1/500 s
100
f/8
9 disparos @ 1 EV
Até 15 segundos depois do fim exato da totalidade: contas de Baily, anel de diamante e cromosfera outra vez, agora do lado oposto do disco. Modo contínuo máximo igual à fase 2, e mal termine, o filtro volta a ser montado sem margem para dúvidas.
5 · Segunda fase parcial 🟢 FILTRO MONTADO
O Sol recupera terreno pouco a pouco até voltar a ficar completo. Os mesmos ajustes da fase 1.
Velocidade
ISO
Abertura
Bracketing
1/500 s
100
f/8
3 disparos @ 1 EV
Um disparo a cada 5 minutos, filtro sempre montado. Na Península Ibérica, esta fase coincide com o pôr do sol real, por isso é possível que o horizonte "engula" o Sol antes de o eclipse terminar por completo — não faz mal, já tem o essencial garantido.
Porque fazer bracketing O PORQUÊ
"9 disparos @ 1 EV" significa tirar 9 fotografias consecutivas separadas por um passo de exposição cada, usando o bracketing automático da câmara (MENU → 📷 2 → Bracket). Serve para duas coisas: cobrir o enorme intervalo dinâmico da coroa (muito mais brilhante no centro do que nas margens) para as fundir depois na edição, e ter uma margem de segurança caso a exposição "correta" calculada antecipadamente fique um pouco desviada.
Detalhe específico deste eclipse visto da Península Ibérica: como o Sol está muito baixo, a sua luz atravessa muito mais atmosfera do que ao meio-dia (extinção atmosférica), chegando mais fraca do que estes valores genéricos assumem. Se as fotos do bracketing saírem todas escuras, não hesite em subir o ISO um ou dois passos em relação à tabela — é exatamente para isso que serve a margem do bracketing.
PARTE 3
O plano que a sua 16-50mm consegue mesmo fazer
Sem teleobjetiva? Não se obsessione com o disco solar. A outra foto do eclipse — a que quase ninguém faz bem — funciona melhor com grande angular.
O eclipse na paisagem GRANDE ANGULAR · 16mm
Durante a totalidade, o céu escurece de repente como se fosse noite, com um brilho alaranjado a toda a volta do horizonte a 360° (a sombra da Lua tem uma borda, e vai estar mesmo dentro dela). A 16mm, com pessoas ou paisagem em primeiro plano e esse céu escurecido atrás, sai um plano que nenhuma teleobjetiva consegue capturar. Ajustes de partida: f/4 · ISO 800-1600 · a velocidade que o fotómetro indicar para o céu — é uma foto de "noite repentina", não um retrato do disco solar.
Missão: planeie um primeiro plano interessante (pessoas a olhar para cima, um monumento, uma árvore) para enquadrar junto ao céu escurecido. Pratique o enquadramento de dia, antes do dia 12, sem apontar ao Sol.
Conseguido quando tiver uma foto do eclipse que conta uma história, não só um ponto branco tapado.
PARTE 4
Treino: pratique com a Lua
Não há segunda oportunidade no dia 12. Tudo o que planeie fazer, teste primeiro num objeto seguro para fotografar: a Lua.
Simulação completa QUALQUER NOITE ANTES DO DIA 12
Numa noite com a Lua visível: monte o tripé, enquadre a Lua, dispare o bracketing de 9 fotos @ 1 EV com o disparador remoto, sem tocar na câmara. Não procure igualar exatamente a exposição do Sol — o objetivo é confirmar que sabe ativar o bracketing, enquadrar rápido e disparar sem tremer antes de o fazer a sério, sem margem para erros.
O autofoco pode hesitar num disco de luz sem contraste. Pratique já a focagem manual no infinito com peaking, apontando à Lua ou a um poste de iluminação distante, e memorize exatamente onde fica o anel de foco. No dia do eclipse, foque assim antes de começar a primeira fase parcial, e não volte a tocar.
Missão: uma simulação completa do início ao fim — tripé, enquadramento, foco manual, bracketing, disparador remoto — cronometrada em menos de 2 minutos. É aproximadamente o tempo real que vai ter durante a totalidade.
Conseguido quando a simulação correr bem sem precisar de reler este guia.